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sábado, 5 de setembro de 2009





Que fogueira é essa?
Estamos na Inquisição?



- Sente-se Stirkof
- Obrigado, senhor.
- Muito gentil de sua parte, senhor.
- Stirkof, eu compreendo que você anda escrevendo artigos sobre a justiça, a igualdade; também sobre o direito à felicidade e à sobrevivência. Stirkoff??
- Sim, senhor?
- Você acha que existirá algum dia uma justiça soberana e sensível no mundo?
- Na realidade não, senhor.
- Então por que você escreve essa merda? Você não está se sentindo bem?
- Eu venho me sentindo meio estranho ultimamente, senhor, quase como se estivesse ficando louco.
- Você anda bebendo muito?
- É claro, senhor.
- E você se masturba?
- Constantemente senhor.
- Como?
- Eu não compreendo, senhor.
- Eu me refiro a como você faz a coisa.
- Quatro ou cinco ovos crus e meio quilo de hamburguer num vaso de flores de gargalo estreito ouvindo Vaughn Williams ou Darius Milhaud.
- Vidro?
- Não, bunda, senhor.
- Eu me refiro ao vaso, é de vidro?
- É claro que não, senhor.
- Você alguma vez já foi casado?
- Muitas vezes, senhor.
- O que aconteceu de errado?
- Tudo, senhor.
- Qual a melhor trepada da sua vida?
- Quatro ovos crus e meio quilo de hamburguer num...
- Tudo bem, tudo bem!
- Mas é verdade.
- Você se dá conta que o seu desejo ardente de justiça e de um mundo melhor é apenas uma fachada para ocultar a decadência, a vergonha e o fracasso que residem dentro de você?
- Há, há.
- Você teve um pai depravado?
- Eu não sei senhor.
- O que você quer dizer com você não sabe?
- Quero dizer que é dificíl de comparar. O senhor vê, eu só tive um.
- Tá tentando bancar o esperto comigo, Stirkoff??
- Oh, não, senhor como o senhor disse, a justiça é impossível.
- Seu pai batia em você?
- Eles se revezavam.
- Pensei que você tivesse apenas um pai.
- Todo homem tem. O que eu quero dizer é que a minha mãe também dava as dela.
- Ela amava você ?
- Somente como uma extensão de si mesma.
- O que mais pode ser o amor?
- O senso comum de querer muito alguma coisa muito boa. Não precisa estar relacionado por laços de sangue. Pode ser uma bola de praia vermelha ou uma fatia de torrada com manteiga.
- Você está querendo dizer que você pode amar uma fatia de torrada com manteiga?
- Somente algumas, senhor. Em determinadas manhãs. Sob determinados raios de sol. O amor chega e vai embora sem avisar.
- É possível amar um ser humano?
- É claro, especialmente se você não os conhecer muito bem. Eu gosto de olhar para eles através da minha janela, caminhando na rua.
- Stirkoff, você é um covarde?
- É claro, senhor.
- Qual a sua definição de um covarde?
- Um homem que pensaria duas vezes antes de lutar com um leão com as mãos nuas.
- E qual a sua definição de um homem corajoso?
- Um homem que não sabe o que é um leão.
- Qualquer homem sabe o que é um leão.
- Qualquer homem pensa que sabe.
- E qual é a sua definição de um tolo.
- Um homem que não se dá conta que o Tempo, a Estrutura e a Carne em sua maior parte se desgastam.
- Então quem é que é sábio?
- Não existe nenhum sábio, senhor.
- Então não pode haver nenhum tolo. Se não existe noite não pode existir dia; se não existe branco não pode existir preto.
- Sinto muito, senhor. Eu pensava que tudo era o que era, não dependendo de qualquer outra coisa.
- Você andou metendo o seu pau em vasos de flores demais. Será que você não compreende que TUDO está certo, que nada pode andar errado?
- Eu compreendo, senhor, que o que acontece, acontece.
- O que é que você diria se eu tivesse que mandar decapitá-lo?
- Eu não seria capaz de dizer coisa alguma, senhor.
- Eu quis dizer que se eu quisesse mandar decapitar você eu permaneceria a Vontade e você se transformaria em Nada.
- Eu me transformaria em outra coisa.
- À minha escolha.
- De acordo com ambas as nossas escolhas, senhor.
- Relaxe! Relaxe! Espiche as pernas.
- Muito gentil de sua parte, senhor.
- Não, muito gentil de ambas as partes.
- Naturalmente senhor.
- Você diz que frequentemente sente essa loucura. O que você faz quando ela se apodera de você?
- Escrevo poesia.
- A poesia é loucura?
- Não-poesia é loucura.
- O que é loucura?
- Loucura é feiúra.
- O que é feio?
- Para cada homem, uma coisa diferente.
- A feiúra é conveniente?
- Ela esta aí.
- Ela é conveniente?
- Eu não sei, senhor.
- Você aspira ao conhecimento. O que é conhecimento?
- Conhecer o mínimo possível.
- Como é que pode ser isso?
- Eu não sei, senhor.
- Você pode construir uma ponte?
- Não, senhor.
- Você pode fabricar uma arma?
- Não, senhor.
- Estas coisas são produtos do conhecimento.
- Estas coisas são pontes e armas.
- Eu vou mandar decapitá-lo.
- Obrigado, senhor.
- Por quê?
- O senhor é a minha maior motivação quando eu tenho tão pouca.
- Eu sou a Justiça.
- Talvez.
- Eu sou o Vencedor. Eu vou fazer com que você seja torturado, eu vou fazer você gritar. Eu farei você desejar a Morte.
- Naturalmente, senhor.
- Será que você não se dá conta que eu sou o seu senhor?
- O senhor é o meu manipulador; mas não há nada que o senhor possa fazer a mim que não possa ser feito.
- Você pensa que fala inteligentemente, mas com os seus gritos você não dirá nada inteligente.
- Eu duvido, senhor.
- Por falar nisso, como é que você pode escutar Vaughn Williams e Darius Mihaud? Nunca ouviu falar nos Beatles?
- Oh, senhor, todo mundo já ouviu falar dos Beatles.
- Você não gosta deles?
- Eu não desgosto deles.
- Você desgosta de algum cantor?
- Cantores não podem ser desgostados.
- Então, qualquer pessoa que tenta cantar?
- Frank Sinatra.
- Por quê?
- Ele evoca uma sociedade doente para uma sociedade doente.
- Você lê algum jornal?
- Apenas um.
- Qual?
- OPEN CITY.
- GUARDA! LEVE ESTE HOMEM PARAS AS CÂMARAS DE TORTURA IMEDIATAMENTE E DÊEM INÍCIO AOS PROCEDIMENTOS!
- Senhor, um último pedido.
- Sim.
- Posso levar meu vaso de flores comigo?
- Não, eu vou usar ele.
- Senhor?
- Quer dizer, eu vou confiscá-lo. Agora, guarda, leve esse idiota daqui!
- E, guarda, volte com, volte com...
- Sim, senhor?
- Uma meia dúzia de ovos crus e alguns quilos de carne moída...
Saem o guarda e o prisioneiro. O rei inclina-se para a frente, sorri maliciosamente enquanto Vaughn Williams vai se insinuando pelo sistema de comunicação. Lá fora, o mundo movimenta-se para frente enquanto um cão infestado de pulgas mija num lindo limoeiro vibrando sob o sol.

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